26 setembro, 2006

Despedida certa



Fumei dois macos de cigarro, li um livro, tentei dormir...e ele nao chegou. Passam mais duas horas, fico na penumbra meio escondida, e resolvo nao esperar mais. Nao suporto este apartamento apertado, este quarto fechado e vazio, essa vida mediocre. Mereco mais do que isso. Posso voltar para minha antiga vida, morar em algum lugar confortavel, ter a companhia dos amigos novamente.
Junto as poucas roupas espalhadas. Faco as malas e separo o casaco de pele. No espelho vejo um resquicio de duvida, eu some assim que comeco a me maquiar. Lembro dos ultimos meses, das falsas promessas, que sempre eram desfeitas com alguma desculpa sobre a mulher depressiva ou a filha doente.
Olho pela ultima vez para o apartamento e nao consigo entender como me submeti aquela vida. Saio decidida a nao voltar mais. No corredor encontro-o, cheio de desculpas: nao conseguiu sair do trabalho antes e o transito estava horrivel. Falava em voz alta, com expressao de tristeza. Fez juras, prometeu ficar comigo, pediu perdao, disse que eu nao podia deixa-lo. Percebi alguns vizinhos abrindo um fresta na porta para ouvir, mas nao era necessario, pois as portas eram proximas e as paredes de papel.
Nao respondi, acendi um ultimo cigarro, larguei a chave do apartamento no chao, virei as costas e fui embora. Nao ouvi ele chamar meu nome, nem correr atras de mim, nao me preocupei com sua tristeza e solidao.
Alcancei a rua, senti frio, a neve se acumulava nas calcadas. E o vento levou embora o medo, a incerteza, a fraqueza. Era a primeira vez em muito tempo que me senti decidida e forte, que estava sendo eu mesma.

Texto criado a partir de uma foto de um filme antigo, preto e branco. A cena: uma mulher no corredor com expressao decidida, o homem cabisbaixo.

4 comentários:

Adele disse...

Aie que legal!

Amei!

Rochele disse...

Que bom. Eu também.
Saudadi.

Paulo disse...

Você desenvolveu todo esse texto cheio de cores, cheiros e emoções de uma foto de um filme antigo?
Muito bom. Muito bom mesmo!
Guria talentosa!

Rochele disse...

Obrigada Paulo,
eu também gostei deste texto.
Vou fazer mais experimentações deste tipo.